Você está aqui: Página Inicial > Contents > Documentos > Publicações > Artigos > O TRABALHO DE CAMPO COMO CAMINHO METODOLÓGICO: TESTEMUNHOS E INTERPRETAÇÕES DE UMA MARCHA INDÍGENA POTIGUARA
conteúdo

O TRABALHO DE CAMPO COMO CAMINHO METODOLÓGICO: TESTEMUNHOS E INTERPRETAÇÕES DE UMA MARCHA INDÍGENA POTIGUARA

por Amanda Christinne Nascimento Marques última modificação 28/11/2016 12h52
Publicado na Revista OKARA: Geografia em debate. V. 2, n.1, 2008. Resumo: “Potiguara é guerreiro, Potiguara é quem vai ganhar! Guerreia na terra e guerreia no mar, Potiguara é quem vai ganhar!”. Este refrão foi repetido em tom enfático pelos índios Potiguara da aldeia Três Rios, localizada no município de Marcação – PB, ao comemorarem o reconhecimento do seu território tradicional. A razão dessa comemoração foi a divulgação da portaria declaratória nº 2.135/07 do Ministério da Justiça, assinada em Dezembro de 2007. Pintados de vermelho e preto, munidos de cocares e sob as chuvas de Janeiro, os Potiguara, na marcha de comemoração e no ato público, revelaram a complexidade das relações intersocietais que os aproximam ou distanciam de outros povos tradicionais e da sociedade envolvente. Partindo desse contextoeste ensaio tem o objetivo de interpretar a marcha indígena potiguara a partir de seus significados simbólicos e políticos. Do ponto de vista metodológico utilizamos para a compreensão espacial da referida marcha, os registros obtidos no campo constituídos em seu todo por escritos feitos nos cadernos de campo, fontes iconográficas (fotos, desenhos e croquis), vídeos, dentre outros materiais. Para fundamentar a nossa narrativa utilizamos como referência autores como Serpa (2006), Rodrigues (2007) e Lacoste (1977) que trabalham diferentes concepções de trabalho de campo na ciência geográfica; além de Geertz (1989), Oliveira (2006) e Moura (1992) que discutem o trabalho de campo como um exercício etnográfico na Antropologia. Ao analisarmos a marcha consideramos que a mesma revela dimensões da territorialidade étnica dos índios Potiguara. A forma como estes expõem e dialogam com o espaço exterior utilizando os elementos inerentes a sua cultura demarca uma fronteira étnica. Tal fronteira é apresentada como extensão de um universo singular dos indígenas por meio das indumentárias, dos adereços, das pinturas corporais, das palavras de ordem, da musicalidade, dos ritmos e das composições que os acompanham. Por meio dos vários elementos simbólicos, movimentos e dinâmicas territoriais, os Potiguara criam e recriam no imaginário social, características historicamente marcantes do seu povo como grupo etnicamente diferenciado. Dentre essas características reconhecidas socialmente cabe destacar o princípio da união e da solidariedade que marcam o viver em comunidade. Este princípio congrega os indígenas de forma igual internamente ao vivenciarem a luta, mas, ao mesmo tempo, os diferencia do ponto de vista da individualidade, dos desejos e das utopias em relação a sociedade envolvente. A marcha é, em seu acontecer, uma representação simbólica direcionada ao outro, ou seja, ao não índio. É a reafirmação de uma identidade que se faz resistente, recriada e diacrítica.