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Leitura na construção da indentidade

Cultura africana na rede pública de ensino
publicado: 10/08/2018 17h39, última modificação: 04/09/2018 14h36

 

Ação de leitura aborda a cultura africana

 

A África está bem perto. Está na cultura; na vida dos brasileiros. Os costumes dos africanos vêm atravessando as fronteiras do tempo e se estabelecendo na sociedade brasileira nos seus mais diversos aspectos: gastronômicos, históricos, religiosos e literários. Contudo, na Literatura, muitas obras afro são desconhecidas pela maioria da população. Contos como “A menina que não falava” e “O homem chamado Namorashota” tornam-se uma novidade diante de um cenário influenciado, em sua maioria, por obras europeias e norte-americanas.  

Com o intuito de levar um pouco da literatura afro-brasileira à comunidade, surgiu o projeto “Leituras e Encantos Africanos e Afro-brasileiros: Uma Proposta Afrocêntrica de Afirmação Identitária”, composto por estudantes do curso de Pedagogia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e coordenado pela bibliotecária Ana Barreto. Ele também conta com o auxílio da docente do Centro de Educação (CE), Alba Cleide, que teve a ideia e formou o grupo para estudar o tema, propor atividades e levá-las aos estudantes da Escola Estadual Irmã Severina Cavalcante Souto, localizada no bairro de Jaguaribe, em João Pessoa (PB).

Maria da Conceição, estudante do 4º período de Pedagogia e bolsista do projeto, avalia essa proposta como uma contribuição fundamental para a formação crítica dos alunos, tanto em relação aos aspectos literários da cultura afro-brasileira, quanto do próprio entendimento da história e do papel social deles. “A perspectiva afrocêntrica me fez ver que a população negra e outras etnias até então silenciadas na literatura, ou relegadas a segundo plano, são capazes de construir sua própria história, produzir literaturas. No ensino fundamental, ter leituras que promovam outras formas de olhar para as realidades e possibilitar caminhos que permitam a autonomia e respeito a diversidade é imprescindível”, explicou.   

Nesse sentido, para sensibilizar os alunos a respeito da própria identidade cultural, busca-se enfatizar a cultura e o processo histórico dos povos que fazem parte da miscigenação do Brasil por meio da valorização dos textos literários.

Segundo Ana Roberta, o projeto busca trazer a afirmação identitária do negro na escola. “Inicialmente, realizamos o mapeamento dos acervos da biblioteca da instituição, para avaliar e selecionar as obras que abordam a temática. Após essa primeira ação, pretendemos promover oficinas de leituras de contos africanos e outros gêneros textuais que reforcem a valorização da cultura afro no Brasil. Dessas atividades, surgirão os debates lúdicos entre os estudantes, profissionais da escola e universitários, tudo isso visando compartilhar conhecimentos e contribuir na formação de cada participante”, relatou a coordenadora.  

Na opinião da aluna do 4º ano da escola Irmã Severina, prestar atenção nas exposições e participar das atividades que as “tias” realizarão é dever de todo o corpo escolar. Ela enxerga o projeto como uma oportunidade de aprender mais sobre a cultura de origem africana e aperfeiçoar sua leitura. Além disso, acredita que muitos colegas aprenderão a ler por meio dos ensinamentos que os universitários transmitirão. “Eu quero aprender a ler direito, a respeitar os meus coleguinhas, independentemente da cor deles, os professores, a ser mais educada e passar o que eu aprendi para os outros alunos. Na verdade, quero muito ajudar os africanos, dar carinho, amor e respeito a eles. Também quero ajudar as crianças a aprenderam a ler, porque acho muito importante que todas tenham acesso a leitura”, disse ela.  

Para os professores da escola, a ação traz uma nova visão dos hábitos e valores dos negros, pois enfatiza uma histórica pouco conhecida pelos brasileiros. São contos com narrativas emocionantes e inspiradoras, seguidos de lições de moral fundamentais para o convívio social saudável e equilibrado, vocabulários ricos e uma tradição encantadora.  

Apesar de o projeto estar na fase inicial, os contatos com o corpo escolar já possibilitaram um levantamento do contexto sociocultural de alguns alunos, o que, consequentemente, será utilizado na execução das oficinas de leituras e na interação com o público.  

No conto “A menina que não falava” muitos foram os rapazes que tentaram fazê-la falar, porém sem êxito. Até que um, sagaz, utilizou de uma técnica infalível: a simplicidade. O resultado foi finalmente fazer ela falar. E é com essa simplicidade, por meio de atividades lúdicas, que os extensionistas buscam a capacidade crítica e criativa de cada aluno da escola Irmã Severina. Se muitos estudantes não sabem ler, o objetivo é torná-los leitores, pensadores e cidadãos sensibilizados com relação à luta pela igualdade racial. Assim como no conto, a equipe vai em busca dessa mudança nos indivíduos, principalmente no processo de ensino-aprendizagem. O que os têm em comum é a valorização e difusão dos encantos da literatura afro-brasileira. Como disse a estudante do 4º ano: “É a luta pela valorização de um dos povos mais importantes na história do Brasil”. 


*Reportagem de Raian Lucas - Bolsista PRAC (2018)

 

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